CIDADEZINHA QUALQUER
Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.
Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.
Eta vida besta, meu Deus.
Carlos Drummond de Andrade
...
Segunda-feira, 6:30 da manhã. Alguém grita meu nome "Você ainda está aí?" . Num sobressalto levanto. Atrasei-me.
No ponto de ônibus às 8 horas, vejo meus conterrâneos caminhando vagasamente rumo ao trabalho entre papos animados sobre o final de semana. Atravessam a rua sem olhar para os lados e pronto. Chegaram em menos de dez minutos e agora esperam o chefe abrir a porta do estabelecimento. Sorriem doces. Pessoas que levam uma vida tanqüila numa pequena cidade do interior.
Entrei no primeiro ônibus. Lotado. Depois de uma hora peguei meu segundo ônibus. Mais duas horas e meia chego à selva. Mais um ônibus até minha segunda casa. Atravesso aquela ponte imensa que parece mais um monumento e finalmente chego ao meu destino. Deixo minha mala no carpete do quarto e saio apressada rumo à faculdade. Uma e meia da tarde estou na sala de aula em meu primeiro dia depois daquelas férias tão especiais passadas no interior. No meu lar.
Naquela noite, assim que coloquei a cabeça no travesseiro não pude deixar de pensar naquelas jovens conterrâneas minhas caminhando para o trabalho. Não pude deixar de lembrar na época em que eu fazia o mesmo trajeto em direção à minha escola. Que acordava dez minutos antes de bater o sinal de entrada. Que eu ría durante as aulas e brincava de três cortes durante o recreio. A merenda era uma delícia! Nunca comi um feijão como aquele. Depois voltava para a sala de aula sem fôlego de tanto conversar papos adolescentes e correr no futsal. Ah! Como passei bons momentos naquela cidadezinha! Fins de tarde jogando vôlei e rindo com meu namorico de praça.
Não pude deixar de pensar na tranqüilidade que às vezes me soava até tediosa. Todos os dias depois do almoço eu visitava minha amiga. Passava horas conversando com ela até a hora de ir para o vôlei. Conversávamos sobre tudo. Nunca tive uma amiga como ela. Até que um dia ela foi para a faculdade. Lentamente fomos nos distanciando até que chegou minha vez de ir para a cidade grande. Não nos vemos mais a não ser aos domingos na igreja, mas mal trocamos meia dúzia de palavras.
Como era boa aquela vida besta! Aquela que todo mundo conhecia. Aquela que eu via meus irmãos todos os dias. Aquela que todo poeta invejaria.
E agora, voltando à selva, corro contra o tempo para poder voltar depressa à minha roça querida. Lugar onde começou minha vida e onde quero que ela termine. Onde me esperam minha família e o amor da minha vida. Lugar que pretendo passar até o fim dos meu dias. Perto dos morros e cachoeiras, praias paradisíecas e clima agradável. Onde não se vê poluição e correria. Onde as amizades têm tempo para crescer. É lá que eu quero viver.